Não Temais: O que Jesus disse às mulheres após a ressurreição #2

O Primeiro Cumprimento do Ressuscitado

Os Sinais do Ressuscitado — Episódio 2 · Mateus 28:9-10

Jesus aparece às mulheres no caminho do túmulo — Mateus 28:9-10

Enquanto Maria Madalena permanecia junto ao túmulo, um outro grupo de mulheres já estava em movimento. Elas haviam ouvido o anúncio do anjo, haviam visto o túmulo vazio, e agora corriam — com medo e com alegria ao mesmo tempo — para contar aos discípulos o que havia acontecido. Foi exatamente nesse momento, no meio do caminho, em plena corrida, que Jesus apareceu.

A segunda aparição do Ressuscitado não aconteceu num jardim silencioso, nem num aposento fechado. Aconteceu num caminho. Enquanto elas iam. A mensagem da Ressurreição nasce em movimento — e isso não é um detalhe acidental. É teologia em ação.

Mateus 28:9-10 é um dos relatos mais breves das aparições pós-ressurreição, mas cada palavra carrega um peso extraordinário. Nele encontramos o primeiro cumprimento direto de Jesus ressuscitado a um grupo de pessoas — e as primeiras palavras que Ele pronuncia revelam o coração do Evangelho pascal.

Contexto Histórico

Para compreender o que estava em jogo naquela manhã, é preciso entender o estado emocional e social dessas mulheres.

No mundo judaico do primeiro século, o luto era um ritual coletivo e fisicamente intenso. Havia práticas específicas de preparação do corpo, de visita ao túmulo, de lamentação pública. As mulheres mencionadas por Mateus — entre elas, Maria Madalena e a outra Maria, mãe de Tiago — haviam acompanhado Jesus desde a Galileia (Mt 27:55-56), financiado seu ministério (Lc 8:3) e permanecido ao pé da cruz quando os discípulos haviam fugido. Eram mulheres de fé concreta, não apenas seguidoras passivas.

Na manhã da Ressurreição, elas foram ao túmulo "para ver o sepulcro" (Mt 28:1) — não necessariamente esperando um milagre, mas cumprindo o dever sagrado do luto. O que encontraram — o anjo, o túmulo vazio, o anúncio — as lançou num estado de medo e alegria simultâneos que Mateus descreve com precisão psicológica rara.

É também importante notar que, no sistema jurídico romano e judaico da época, o testemunho de mulheres não era aceito como prova válida em tribunal. O historiador Josefo, contemporâneo dos apóstolos, afirmava explicitamente que "não se admita o testemunho das mulheres, por causa da leveza e ousadia do sexo" (Antiguidades Judaicas, IV.8.15). Que Jesus tenha escolhido mulheres como suas primeiras testemunhas e mensageiras é, portanto, um ato deliberadamente subversivo — e um dos maiores argumentos pela autenticidade histórica do relato.

Exegese do Texto — Mateus 28:9-10

"E eis que Jesus lhes saiu ao encontro, dizendo: Salve! E elas, aproximando-se, abraçaram-lhe os pés e o adoraram. Então Jesus lhes disse: Não temais; ide, anunciai a meus irmãos que se dirijam à Galileia; e lá me verão."

Mateus 28:9-10

"Jesus lhes saiu ao encontro" (v.9a)

O verbo grego usado aqui é hypantáō — encontrar, ir ao encontro de alguém. Não é um encontro passivo. Jesus toma a iniciativa. Ele vai ao encontro delas. Não espera ser procurado, não aparece apenas quando invocado. O Ressuscitado se move em direção àqueles que estão em movimento em direção a Ele.

Este detalhe já contém uma teologia inteira: a graça sempre precede. O encontro com o Ressuscitado não depende exclusivamente da nossa busca — Ele também nos busca, e frequentemente nos alcança exatamente no caminho, no meio do percurso, quando ainda não chegamos ao destino.

"Salve!" — O primeiro cumprimento (v.9b)

A palavra grega é Chaírete — literalmente "regozijai-vos", geralmente traduzida como "Salve!" ou "Alegrai-vos!". É a saudação comum do mundo grego, mas na boca do Ressuscitado ela adquire uma dimensão nova. O Ressuscitado não abre com um ensinamento, não abre com uma repreensão pelo abandono da noite anterior. Abre com alegria. Com uma convocação à alegria.

Vale notar que esta é uma das raras coisas que Jesus diz após a Ressurreição antes do "Não temais". Ele primeiro convoca à alegria — e então endereça o medo.

"Abraçaram-lhe os pés e o adoraram" (v.9c)

Este gesto merece atenção especial. As mulheres se aproximam e seguram os pés de Jesus — e o texto permite isso. Diferentemente do relato de Maria Madalena em João, onde Jesus diz "não me segures", aqui o toque é permitido, até acolhido.

Por quê a diferença? A maioria dos estudiosos aponta para o propósito teológico de cada relato. Em João, o foco está na transformação do relacionamento com o Cristo ressurreto — Maria precisa aprender a encontrá-lo de uma nova forma. Em Mateus, o foco está na confirmação da realidade física da Ressurreição. Ao segurar seus pés, as mulheres atestam: este não é um fantasma, não é uma visão. É um corpo real, ressurreto, glorificado — mas tangível.

O verbo para "adoraram" é prosekýnēsan — prostrar-se em adoração, o mesmo gesto reservado a Deus na tradição judaica. A Ressurreição não apenas confirma que Jesus está vivo. Confirma quem Ele é.

"Não temais" (v.10a)

"Não temais" Mateus 28:10 · Μὴ φοβεῖσθε · Mē phobeisthe

Esta é a primeira frase completa que Jesus dirige a um grupo de pessoas após a Ressurreição. E ela começa com uma proibição: não temais.

O verbo grego é phobeō — temer, ter medo. Na forma imperativa negativa, significa literalmente "cessai de temer" ou "não continueis temendo". O medo já está presente; a ordem é interrompê-lo.

"Não temais" é, talvez, a frase mais repetida por Jesus nos Evangelhos — e ela reaparece aqui, na manhã da Ressurreição, como a primeira mensagem do Vencedor da morte. A Ressurreição não é apenas uma afirmação de que Jesus está vivo. É a derrota daquilo que alimenta todo medo humano: a morte. Se a morte foi vencida, o que resta para temer?

"Ide, anunciai a meus irmãos" (v.10b)

A expressão "meus irmãos" (adelphoí mou) é significativa. Jesus não diz "meus discípulos", não diz "meus seguidores". Diz irmãos. Após a noite da traição, após o abandono no Getsêmani, após a fuga da crucificação — Jesus chama os apóstolos de irmãos. A Ressurreição inaugura uma nova linguagem de relacionamento.

E a missão é clara: ide, anunciai. As mulheres são enviadas como mensageiras oficiais. Elas são constituídas como apóstolas — no sentido literal do termo, apostolos, "enviadas" — antes mesmo de qualquer apóstolo homem receber essa comissão explícita.

Lexicão do Logos: Chaírete

Chaírete Χαίρετε · Grego · Mateus 28:9

Imperativo plural de chaírō — alegrar-se, regozijar-se. Traduzido como "Salve!" nas versões tradicionais, mas o significado mais preciso é "Alegrai-vos!" ou "Regozijai-vos!". É a primeira palavra que Jesus ressuscitado dirige a um grupo de pessoas — e ela é um chamado à alegria.

A escolha desta palavra como abertura do primeiro encontro coletivo com o Ressuscitado não é casual. Na cultura grega, chaírete era uma saudação cotidiana — o equivalente a um "olá" ou "bom dia". Mas João 16:22 lança uma luz diferente sobre ela: "Vós agora estais tristes; mas tornarei a ver-vos, e o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém vo-la tirará." A saudação do Ressuscitado é o cumprimento dessa promessa.

A alegria pascal não é uma emoção superficial. É a resposta ontológica correta diante da morte derrotada. Quando Jesus diz chaírete, não está apenas sendo cordial. Está anunciando que a razão de todo luto foi removida.

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🎥 Reflexão Final

Aplicação Devocional

A aparição às mulheres no caminho fala diretamente a todos os que vivem entre o medo e a alegria — aqueles que, como elas, saíram com o coração partido e encontraram algo que não sabiam nomear.

Há uma tensão psicológica e espiritual muito honesta no relato de Mateus: as mulheres partiram "com medo e grande alegria" ao mesmo tempo (Mt 28:8). O texto não resolve essa tensão antes do encontro com Jesus. Elas não chegaram ao destino já curadas, já tranquilas, já com tudo entendido. Foi no caminho, com medo e alegria misturados, que Jesus as encontrou.

A espiritualidade cristã frequentemente cria a expectativa de que o medo precisa ser resolvido antes do encontro com Deus — que é preciso chegar "pronto", sereno, com a fé organizada. A aparição às mulheres desfaz essa ilusão. Jesus vai ao encontro dos que ainda estão com medo. O "não temais" é dito a quem ainda teme, não a quem já superou o medo.

E a missão? Ela é confiada antes da compreensão total. As mulheres não tinham ainda uma teologia sistematizada da Ressurreição. Tinham uma experiência — Jesus ao encontro delas, seus pés seguros, sua voz dizendo o nome delas. E isso foi suficiente para enviar.

O Evangelho sempre começa assim: não com quem já entendeu tudo, mas com quem foi encontrado no caminho e recebeu a missão de ir contar.

Oração

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